Municípios citam baixa procura e erros logísticos como causa de desperdício de vacinas

Conforme dados da Sesa, 16 municípios do Estado desperdiçaram 14.627 doses da vacina da Pfizer

Municípios citam baixa procura e erros logísticos como causa de desperdício de vacinas

Ministério Público Estadual (MPCE) identificou que, até a segunda-feira, 8, 16 municípios do Estado desperdiçaram um total de 14.627 doses da vacina da Pfizer, conforme dados da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa). Entre as justificativas dos municípios para as perdas estão fatores como erros logísticos e baixa procura pela segunda dose. Diferente das outras vacinas, a Pfizer tem data de validade de 31 dias em temperatura positiva, que é como os imunizantes são distribuídos e assim permanecem nos municípios, que não possuem câmara de refrigeração adequada. 

No caso do Crato (Cariri Cearense), onde mais doses foram desperdiçadas conforme o levantamento, 5.322, a prefeitura do município afirma, entre outros, haver uma baixa adesão da população à segunda dose, levando ao vencimento dos imunizantes. “Mesmo com as diversas estratégias adotadas para operacionalização da vacinação, constatam-se desafios de logística e adesão da população ao processo de vacinação, como a abstenção nos agendamentos e o abandono do esquema vacinal”, diz a prefeitura em nota. Também citaram a O POVO a falta de procura como motivo do vencimento os municípios de Aquiraz (Grande Fortaleza), Jijoca de Jericoacoara (Litoral Oeste), Pindoretama (Grande Fortaleza) e Potengi (Cariri).

Possíveis problemas de logística são citados em outros municípios. Em Pacajus, a prefeitura afirmou, em nota, que abriu um processo de apuração de possível erro logístico na Central de Abastecimento Farmacêutico (CAF) de Pacajus. Barreiras, no Maciço de Baturité, também disse que vai abrir sindicância administrativa para apurar os vencimentos. Já Porteiras e Farias Brito afirmaram terem recebido grande quantidade de doses, dificultando a vacinação por conta do tempo exíguo de validade da Pfizer. Confira as respostas completas dos municípios mais abaixo, assim como a lista de municípios em que se perderam doses da vacina.

O MPCE afirmou que, diante dessas informações, os promotores de Justiça de cada jurisdição poderão expedir recomendações e abrir procedimentos para que os gestores expliquem formalmente as situações. Conforme o promotor Eneas Romero, coordenador do Centro de Apoio Operacional da Saúde (CaoSaúde), do MPCE, caso identificado dolo pelo vencimento da vacina, os gestores podem responder por improbidade por dano ao erário.

Romero afirma ser muito grave o desperdício de vacinas. Principalmente em um momento em que se registra um recrudescimento da pandemia na Europa, mesmo em países com alcance vacinal maior. Para ele, é preciso que haja supervisão e controle adequado das vacinas por parte de municípios e Estado para evitar desperdícios. “É importante que cresça o percentual de vacinação o quanto antes. É muito preocupante municípios com 30, 40% de segunda dose. Isso deixa a população em situação de bastante vulnerabilidade em uma eventual terceira onda”, afirmou.

Em ofício ao MPCE, a Sesa afirmou ter recomendado aos municípios que as doses próximas ao vencimento devem ser remanejadas a outros municípios. A Sesa também recomendou — "considerando que 60% dos municípios (110 municípios), aplicaram menos de 80% das doses de D2 enviadas" — intensificar as estratégias a fim de completar a cobertura vacinal.

A Sesa ainda informou que, até o último dia 7, haviam sido distribuídas 6.185.138 doses entre os municípios do Estado. A cobertura vacinal, conforme a Sesa, atingiu 67,10% da população do público-alvo (maiores de 12 anos), ou seja, 4.989.103 pessoas. Não foi registrado vencimento de Pfizer em Fortaleza, que vacinou 74,07% de sua população com primeira dose. 

Municípios que desperdiçaram imunizantes:

Crato 5.322 doses
Pacajus 2.340 doses
Aquiraz 2.280 doses
Barreira 1.248 doses
Pindoretama 1.104 doses
Icó 618 doses
Orós 420 doses
Hidrolândia 354 doses
Jijoca de Jericoacoara 252 doses
Porteiras 192 doses
Ipaumirim 150 doses
Potengi 102 doses
Monsenhor Tabosa 84 doses
Varjota 77 doses
Farias Brito 54 doses
Potiretama 30 doses

Municípios com cobertura vacinal mais baixa:

Capistrano (39,32%)
Aracoiaba (44,28%)
Tianguá (45,61%)
Itaitinga (48,82%)
Irauçuba (51,81%)
Jucás (52,56%)
Beberibe (53,26%)
Itarema (53,71%)
Madalena (55,29%)
Ubajara (56,58%)
Uruoca (57,71%)
Massapê (58,52%)
Jijoca de Jericoacoara (59,27%)
Aquiraz (59,46%).

O que disseram os municípios:

Aquiraz: “Já obtivemos o resultado esperado na primeira dose, porém, a baixa procura pela segunda dose está dificultando a operacionalização dos insumos, o município já está buscando alternativas para que a população se conscientize que só estaremos livres da Covid-19 com o esquema completo da vacinação. A devolução de vacinas se dá pela recente informação repassada pela coordenadoria de imunização do estado, que, as vacinas só poderão ser utilizadas dentro do prazo de 30 dias após recebimento nos municípios”.

Barreira: “Ao tomar conhecimento da notícia publicada no sítio eletrônico oficial do Ministério Público do Estado do Ceará, informando a apuração pelo órgão, da não aplicação de 1.248 doses de vacinas no município de Barreira, por perecimento do imunizante, determinamos a abertura de sindicância administrativa, através da Portaria n.º 368/2021, ainda na manhã de hoje. Não vamos hesitar em tomar as medidas cabíveis ao final do processo. Nós confiamos nas pessoas e servidores públicos ocupantes dos cargos diretamente envolvidos na problemática e que, em tese, deveriam nos auxiliar a administrar o município da melhor forma. Com isso, vamos aguardar o fim da apuração e se qualquer ponta de irregularidade se confirmar, as atitudes serão tomadas nos termos da lei. O município se coloca a inteira disposição das autoridades”.

Crato: “A Secretaria de Saúde do Crato informa que recebeu, desde o início de vacinação contra Covid-19, cerca de 212 mil doses efetivas de imunobiológicos. O município do Crato sempre esteve na vanguarda e protagonismo do processo de vacinação do Cariri. Dos municípios com mais de 100 mil habitantes do Estado do Ceará, sempre esteve em terceiro lugar como município que mais vacinou a sua população, o que comprova a eficiência do processo de planejamento e comprometimento com o processo de vacinação. Mesmo com as diversas estratégias adotadas para operacionalização da vacinação, constata-se desafios de logística e adesão da população ao processo de vacinação, como a abstenção nos agendamentos e o abandono do esquema vacinal. A SMS tem observado, nos últimos meses, baixa adesão da população para D2 de Pfizer, mesmo com abertura diária de agendas no sistema Saúde Digital e divulgação em massa na imprensa local e canais oficiais da Prefeitura. O município realiza diariamente cerca de 1.500 doses de vacinas D2 só no Centro de Vacinação, além de Unidades de Saúde descentralizadas no território entre zona rural e urbana estimando-se cerca de 1.800 doses de vacina D2 por dia D2 realizadas no município. Informamos que a vacina Pfizer é um imunobiológico sensível, que requer cuidados diferenciados no seu armazenamento. A Secretaria Estadual de Saúde do Ceará (Sesa) já entrega aos municípios as vacinas descongeladas para uso em até 31 dias, com armazenamento em câmara fria, seguindo o controle rigoroso de temperatura. Para garantir a integridade dos imunobiológicos, a SMS sempre realizou remanejamento dessas vacinas entre as remessas recebidas conforme autorização prévia do Estado para otimizar a utilização dos insumos. A rede de frio da SMS sempre zelou pela integridade dos imunobiológicos e sempre realizou remanejamento dessas vacinas entre as remessas recebidas, conforme autorização prévia do Estado para otimizar a utilização dos insumos. Apenas no dia 29 de outubro, a Secretaria Executiva de Vigilância e Regulação em Saúde do Estado, através do memorando circular 054/2021, sinalizou, diante dos episódios de perdas de vacina Pfizer por outros municípios cearenses, a autorização para remanejamento das doses próximas ao vencimento do período de armazenamento entre os municípios. Dessa forma, não houve tempo hábil para este remanejamento municipal devido já estar em prazo máximo de acondicionamento local. Salientamos que, desde o início da vacinação, o Crato possui índice de eficiência que supera 97% na aplicação de doses na população, o que lhe coloca nos primeiros lugares em todo o Estado do Ceará. Informamos que a SMS segue a rigor todas as orientações e recomendações da Secretaria Estadual de Saúde, de modo que sempre buscará a melhoria da logística e da aplicação das doses de todos os imunizantes”.

Farias Brito: Em entrevista à rádio O POVO/CBN, a secretária de Saúde do Município Marcleide Nascimento afirmou que o município recebeu uma grande quantidade de vacinas da Pfizer e não conseguiu aplicá-las antes do prazo por ter outras campanhas de vacinação que precisavam ser feitas por estarem atrasadas. “Isso não vai mais acontecer. A gente já está atento como é que tem que ser feito".

Jijoca de Jericoacoara: “O município de Jijoca de Jericoacoara esclarece que realiza rotineiramente, campanhas de conscientização da vacina, com mutirões, mídias sociais, carros de som e buscas ativas através das Agentes Comunitárias de Saúde com a intenção de que a população esteja imunizada contra a Covid-19. A secretaria de saúde esclarece, ainda, que hoje o município conta com 92,11% de vacinados da primeira dose e 63,69% de vacinados já com a segunda dose da vacina. Infelizmente, diante da recusa da população em aderir o imunizante; por causa de medo, convicções políticas e/ou religiosas, das 2.130 vacinas entregues ao município na época da citação pelo MP-CE ocorrendo a sobra de vacina. Dentro do cronograma, também, muitas pessoas tomaram a primeira dose e não retornaram para a D-2 devido ao prazo do imunizante e também pela recusa devidos aos efeitos colaterais. Estamos em contato direto com a regional de Acaraú, informando todos os passos da campanha de imunização em Jijoca de Jericoacoara”.

Pacajus: “A Prefeitura de Pacajus, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, vem esclarecer a respeito da informação noticiada sobre o desperdício de imunizante da Covid-19 no Município de Pacajus. O Ministério Público não comunicou oficialmente à Secretaria de Saúde do assunto, contudo, está sendo investigado o possível erro logístico na Central de Abastecimento Farmacêutico (CAF) de Pacajus. Dessa forma, a prefeitura abriu um processo de apuração dos fatos para garantir rigor absoluto a respeito do ocorrido. A verdade é que o município está garantindo uma ampla cobertura vacinal da população, com intensificação da campanha na internet e veículos tradicionais e mesmo com o possível erro, não houve danos a campanha de imunização de Pacajus. É necessário pontuar que o município vem realizando uma busca ativa, por meio de mutirões nos postos de saúde e na sede da Secretaria de Saúde, porém, existe uma baixa procura da população a respeito da vacina contra a Covid-19. Vale ressaltar que a taxa de cobertura vacinal do município de D1 é 81,05% e da D2 é 57,80%. Total de doses aplicadas X recebidas de D1 97,08% e da D2 79,91%. Estando o município dentro da média nacional de imunização”.

Pindoretama: Em posicionamento feito por vídeo, o secretário de Saúde Rilson Andrade destacou que “houve uma baixíssima adesão” à segunda dose por parte da população das áreas rurais. “Esperávamos em algumas comunidades aplicar até mil doses e só conseguimos cerca de 400”, exemplificou. Dessa forma, o Governo do Estado foi notificado e as vacinas não foram aplicadas. “Mas isso não vai interferir de forma alguma no andamento do processo de vacinação”, afirmou. “Continua normal. Inclusive estamos percebendo que a adesão vem aumentando neste mês de novembro. Ontem (10/11), por exemplo, chegamos a vacinar mais de 600 pessoas”. O secretário ainda destacou que Pindoretama é o terceiro município que mais aplicou a primeira dose e que, quanto maior o número de primeiras doses aplicadas, maior o número de segunda doses enviadas pelo Estado.

Porteiras: Em entrevista à rádio O POVO/CBN, a secretária de Saúde do Município Lêda Almeida afirmou que Porteiras tem recebido um grande quantitativo de doses antecipadas, sendo que a segunda dose só pode ser aplicada após 60 dias da primeira. “Infelizmente, esse prazo não foi suficiente para utilizar todas as doses recebidas”. Para ela, faltou integração entre a Sesa e os municípios.

Potengi: Em entrevista a O POVO, a secretária de Saúde do Município, Luiza Williane, afirmou que a informação de que a vacina em temperatura positiva deveria ser aplicada em 28 dias (já que leva dois dias para fazer a distribuição até o Município) não foi dada com antecedência. Até então, o Município estava trabalhando com a data de validade do lote congelado, que vai até 2022. “Inclusive, houve vários municípios que questionaram porque não foi dito antes”, disse a secretária, lembrando que os municípios não dispõem de câmara de refrigeração adequada para a conservação. A gestora ainda cita que o município recebeu mais primeiras doses que segundas. Ela também destacou a resistência da população em tomar a segunda dose. Segunda conta, houve casos em que os agentes de saúde precisaram ir sete ou oito vezes às casas dos moradores para convencê-los a ir se vacinar. Apesar disso, a secretária afirma que mais de 75% da população está vacinada.

O POVO não conseguiu contato com as prefeituras de Icó, Orós, Ipaumirim, Monsenhor Tabosa, Varjota e Potiretama na tarde e na noite de desta quinta-feira, 11. Hidrolândia afirmou que emitiria nota na manhã de sexta-feira, 12. (Colaboraram: Luciano Cesário e Guilherme Carvalho)

Por Opovo Online